Hoje, 2 de abril, celebramos o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, um momento importante para refletirmos sobre como podemos acolher melhor as pessoas autistas e compreender suas singularidades. Muitas vezes, quando falamos sobre autismo, nos deparamos com tentativas de encaixar essas pessoas em padrões que nem sempre fazem sentido para elas. Mas e se, em vez de tentar “ajustar”, nós simplesmente escutássemos?

A psicanálise nos ensina que cada sujeito tem sua própria forma de existir no mundo. Com o autismo, isso se torna ainda mais evidente: algumas pessoas podem ter dificuldade em se comunicar verbalmente, outras preferem rotinas bem estruturadas, e há aquelas que possuem interesses muito específicos e intensos. O mais importante é entender que não existe um jeito “certo” ou “errado” de ser, e que cada pessoa tem seu próprio ritmo e maneira de se relacionar com o mundo.

Infelizmente, ainda vivemos em uma sociedade que insiste em normatizar comportamentos e rotular tudo o que foge do padrão. Isso pode ser muito desgastante para quem é autista e para suas famílias, que frequentemente se sentem pressionadas a adaptar seus filhos ou parentes a um modelo que não respeita suas singularidades.

Nós, como psicanalistas, somos convidados a seguir sempre na direção oposta: em vez de impor uma forma fixa de ser, devemos propor um espaço de escuta e acolhimento, onde a subjetividade de cada indivíduo possa ser valorizada. E essa é uma das razões que me fazem amar o meu trabalho.

Além disso, a conscientização sobre o autismo precisa ir além do indivíduo. Precisamos de escolas mais inclusivas, de empresas que respeitem diferentes formas de trabalho e de um mundo que aceite as pessoas como elas são, sem exigir que se encaixem em um padrão que não as representa.

Por isso, hoje, no Dia Mundial da Conscientização do Autismo, meu convite para você é: abra espaço para a escuta. Permita-se conhecer o outro sem expectativas ou cobranças e aprenda que compreender o autismo não significa buscar mudança, mas sim aprender a respeitar e valorizar a diversidade que torna cada pessoa única.

Nos últimos anos, o burnout e a exaustão emocional se tornaram temas centrais nas discussões sobre saúde mental. No entanto, para além das explicações comportamentais e fisiológicas, a psicanálise nos convida a explorar as dinâmicas inconscientes que podem estar na base desses fenômenos. A teoria de Melanie Klein, em particular, nos oferece uma perspectiva profunda sobre a relação entre burnout, culpa inconsciente e idealização.

Klein descreveu a culpa inconsciente como um elemento central na formação da subjetividade. Desde a infância, o indivíduo vivencia ansiedades persecutórias e depressivas, derivadas das fantasias inconscientes sobre o dano causado aos objetos internos. Essa culpa pode gerar um desejo incessante de reparação, levando a um comportamento de autossacrifício e sobrecarga, característicos do burnout. No ambiente de trabalho e nas relações interpessoais, essa necessidade pode se manifestar como uma busca constante por reconhecimento, alimentada pela crença de que o sucesso ou o desempenho impecável podem aliviar a culpa interna. Dessa forma, o indivíduo se coloca em situações de extrema exigência, negligenciando seus limites até a exaustão emocional.

Outro conceito fundamental da teoria kleiniana é a idealização, um mecanismo de defesa usado para evitar o confronto com aspectos dolorosos da realidade psíquica. No contexto do burnout, a idealização pode se manifestar de diversas formas, como a superestimação das próprias capacidades ou a criação de expectativas irreais sobre o trabalho e as relações sociais. A pessoa que sofre de burnout muitas vezes acredita que precisa ser perfeita, incansável e insubstituível, projetando em si mesma uma imagem idealizada que não corresponde à sua realidade emocional. Essa idealização, contudo, acaba por reforçar a frustração e o sentimento de fracasso quando os padrões inalcançáveis não são atingidos. Compreender essas dinâmicas inconscientes é um passo fundamental para a prevenção e o tratamento do burnout.

O trabalho psicanalítico pode ajudar o indivíduo a reconhecer os sentimentos de culpa que o impulsionam ao excesso de trabalho e a reformular sua relação com a própria produtividade. Ao integrar e aceitar os aspectos ambivalentes da própria psique, o sujeito pode reduzir a necessidade de idealização e construir um relacionamento mais realista consigo mesmo e com o mundo ao seu redor. Dessa forma, a saúde mental deixa de ser vista apenas como um estado de ausência de doença, mas sim como um processo contínuo de autoconhecimento e elaboração emocional.

Muitas vezes, nos vemos presos em relacionamentos que nos esgotam, nos frustram ou nos deixam com uma sensação de vazio constante. Por mais que a razão nos alerte, algo nos mantém ali, repetindo padrões e atraindo o mesmo tipo de dinâmica disfuncional. Quando mergulho nesse tema com meus pacientes, a psicanálise me mostra que há raízes profundas nessa repetição — e duas delas costumam estar bem entrelaçadas: o apego inseguro e a construção do falso self.

O apego inseguro nasce lá atrás, na nossa primeira infância, quando a relação com as figuras parentais não foi suficientemente boa. Não se trata de culpar, mas de entender. Quando o ambiente falha em acolher, em dar previsibilidade ou quando o amor é condicionado, a criança desenvolve mecanismos de sobrevivência psíquica. Ela aprende, por exemplo, que não pode confiar plenamente no cuidado do outro ou que precisa se esforçar demais para ser amada. Essa insegurança afetiva se internaliza e se manifesta, mais tarde, nos vínculos amorosos. O adulto carrega, muitas vezes sem perceber, um medo latente de ser abandonado ou rejeitado, ao mesmo tempo em que sente dificuldade em se entregar e confiar. É um paradoxo: deseja intimidade, mas teme a vulnerabilidade.

Nesse contexto, surge o falso self. A psicanálise, especialmente com Winnicott, nos ensina que o falso self é uma defesa criada quando o eu verdadeiro não foi acolhido ou validado. Para garantir o amor e a aceitação das figuras importantes, a criança começa a esconder partes de si, sufocar espontaneidades, moldar comportamentos e desejos para se adaptar ao ambiente. Com o tempo, esse falso self se cristaliza e acompanha a pessoa na vida adulta. Assim, nas relações amorosas, o indivíduo pode sentir que precisa desempenhar um papel: o de quem não incomoda, o de quem está sempre disponível, o de quem abre mão de si para manter o outro por perto. Esse processo, silencioso e inconsciente, muitas vezes é a armadilha que mantém a pessoa presa em relações tóxicas.

O mais interessante — e doloroso — é perceber que tanto o apego inseguro quanto o falso self criam um circuito fechado. Um alimenta o outro. A pessoa sente medo da rejeição (apego inseguro) e, para evitar esse medo, se esconde atrás do falso self, sacrificando o próprio desejo, autenticidade e até a autoestima. O resultado? Relações onde o afeto vem sempre acompanhado de angústia, submissão, insegurança ou uma eterna sensação de inadequação.

Muitos pacientes me dizem que “sempre escolhem parceiros problemáticos” ou que “parece que atraem sempre o mesmo tipo de relação”. Do ponto de vista psicanalítico, não se trata de mero azar ou coincidência, mas de uma repetição inconsciente que busca, de alguma forma, reparar aquela primeira ferida emocional da infância. O sujeito, sem perceber, busca no parceiro ou na parceira uma chance de reviver o cenário original, mas esperando agora um desfecho diferente. Porém, enquanto o falso self estiver no comando e o apego inseguro ditar as regras, a tendência é repetir a frustração inicial.

O caminho de saída passa, inevitavelmente, pelo encontro com o self verdadeiro e pela elaboração dessas feridas precoces. É um processo que pede tempo, escuta e acolhimento, tanto na análise quanto na relação consigo mesmo. Não basta apenas identificar o padrão; é preciso dar espaço para que o eu verdadeiro possa emergir, com suas fragilidades, desejos e limites. E esse é um trabalho delicado, que exige muita coragem, pois implica em abrir mão da ilusão de controle que o falso self oferece e em enfrentar o medo do abandono e da rejeição, tão presentes no apego inseguro.

Quando conseguimos trilhar esse caminho, começamos a experimentar uma nova forma de amar e ser amados — mais livre, mais autêntica e, principalmente, mais conectada com quem realmente somos. E é aí que as relações deixam de ser terreno de sofrimento e passam a ser espaço de crescimento e troca genuína.

Vamos falar sobre um tema que amo estudar e que, quanto mais me aprofundo, mais desejo que as famílias conheçam. Assim, nós, pais, talvez possamos criar filhos emocionalmente maduros e saudáveis, garantindo que essa corrente continue.

Desde que comecei a estudar psicanálise, um dos conceitos que mais me impactou foi a ideia de que nossa infância molda profundamente quem nos tornamos na vida adulta. Winnicott, fala sobre como o ambiente em que crescemos pode nos ajudar a desenvolver um verdadeiro self ou, ao contrário, nos empurrar para a construção de um falso self, uma máscara que usamos para nos adaptar a um mundo que não nos acolheu como precisávamos.

Muitas vezes, quando pensamos em traumas infantis, imaginamos apenas situações extremas, mas Winnicott nos ensina que um trauma pode ser silencioso. Pode estar na falta de um olhar atento, no choro que ninguém acalmou, na necessidade emocional que nunca foi reconhecida. O bebê nasce totalmente dependente do outro para sobreviver e, se esse outro falha repetidamente em oferecer cuidado e presença, a criança aprende que não pode contar com o mundo e passa a esconder suas verdadeiras necessidades.

Na vida adulta, isso pode aparecer de várias formas: dificuldade em se conectar com as próprias emoções, um sentimento constante de vazio, medo da rejeição ou até uma necessidade exagerada de agradar os outros. Algumas pessoas sentem que precisam estar sempre no controle, enquanto outras se tornam extremamente dependentes. Tudo isso pode estar relacionado a um ambiente que não foi suficientemente bom na infância.

Mas o mais bonito na visão de Winnicott é que ele não acreditava que estávamos condenados a repetir essa história para sempre. Através de relações seguras – seja na terapia, em um relacionamento saudável ou em novas experiências de acolhimento – é possível resgatar partes de nós que foram reprimidas e finalmente nos permitir ser quem realmente somos. O processo pode ser difícil, porque significa entrar em contato com dores antigas, mas é também libertador.

Se você sente que carrega marcas da sua infância que impactam sua vida hoje, saiba que isso não significa que você está quebrado. Muito pelo contrário. Significa que há um caminho para reconstrução, para se reconectar com aquilo que um dia foi perdido. E esse caminho pode começar com um simples passo: reconhecer sua própria história e se permitir vivê-la de maneira diferente.

Me lembro há dez anos, quando fui mandada embora pela primeira vez na vida, que comecei a me sentir triste e não suportava o silêncio. Ligava a TV ou o rádio para que houvesse vozes no apartamento e assim parecesse que havia pessoas ali comigo. Eu não compreendia por que precisava de barulho o tempo todo, mas um dia, na análise, consegui perceber que, na verdade, eu não conseguia ficar sozinha comigo mesma. O silêncio faz exatamente isso: nos deixa desconfortáveis, nos incomoda e começa a nos mostrar coisas sobre nós mesmos que talvez não estejamos prontos para lidar.

Em conversas cotidianas, nos apressamos para preencher o silêncio com palavras, como se o vazio fosse algo a ser evitado. Mas o silêncio, longe de ser um obstáculo, é um elemento fundamental no processo analítico e na compreensão da subjetividade humana.

Na psicanálise, o silêncio não é apenas a ausência de fala, mas um espaço de elaboração. Ele permite que o inconsciente se manifeste sem as barreiras da fala automática ou das respostas prontas. Freud já apontava que há lapsos, hesitações e pausas que dizem mais sobre o sujeito do que suas palavras. Muitas vezes, o silêncio na clínica revela um ponto de resistência ou um momento em que algo ainda não pode ser nomeado. Respeitá-lo é abrir caminho para que conteúdos psíquicos possam emergir com mais autenticidade.

No entanto, a sociedade contemporânea nos condiciona a evitar o silêncio. Vivemos cercados por ruídos, distrações e estímulos constantes. As redes sociais e a cultura da hiperconectividade tornaram o vazio algo quase intolerável. No silêncio, nos deparamos conosco, com nossas angústias, desejos e questões não resolvidas – e isso pode ser assustador. O medo do vazio é, muitas vezes, o medo do encontro com aquilo que não conseguimos dizer.

Na terapia, o silêncio também desafia a necessidade de respostas rápidas. Em um mundo acelerado, onde tudo precisa ser resolvido imediatamente, o espaço analítico propõe um outro tempo: um tempo de escuta, de elaboração e de transformação. Não se trata apenas de falar, mas de permitir que o discurso tome forma no ritmo necessário para o sujeito.

Além do setting analítico, o silêncio tem valor na vida cotidiana. Ele pode ser um momento de reflexão, um espaço para sentir e elaborar antes de reagir. No convívio com o outro, o silêncio pode ser uma forma de presença, um respeito pelo que não precisa ser dito. Quando aprendemos a suportar o silêncio, nos aproximamos de uma escuta mais profunda – tanto de nós mesmos quanto dos outros.

Talvez a grande questão não seja por que temos medo do silêncio, mas o que ele pode nos revelar quando ousamos escutá-lo

A tristeza faz parte da vida. Em algum momento, todos nós sentimos tristeza diante de perdas, frustrações ou desafios. É uma emoção natural, uma resposta a situações difíceis, mas que, com o tempo, tende a passar. Mas como saber se a tristeza se tornou depressão? Existe um tempo certo para se sentir triste? O que diferencia a depressão de uma simples tristeza?

Atualmente, fala-se muito sobre transtornos mentais. Depressão, ansiedade, bipolaridade, autismo e TDAH são transtornos da saúde mental amplamente discutidos, mas poucas pessoas realmente sabem diferenciar seus sintomas. Menos ainda buscam profissionais para obter um diagnóstico correto. O que acontece é que a “geração Google e ChatGPT” parece saber tudo, mas essa superficialidade de informação pode levar à desinformação. Muitas pessoas que realmente sofrem de um transtorno podem não reconhecer seus próprios sintomas e, assim, não buscar a ajuda necessária.

A depressão é algo muito diferente da tristeza. Ela não é apenas uma tristeza prolongada, mas um transtorno psicológico que afeta profundamente a forma como a pessoa pensa, sente e vive. É como se a pessoa estivesse constantemente ausente, sem interesse por nada.

Outra diferença está na intensidade, na duração e no impacto na vida da pessoa. Quando estamos tristes, geralmente sabemos o motivo e, aos poucos, conseguimos seguir em frente. A depressão, por outro lado, pode surgir sem um motivo claro e se arrastar por semanas, meses ou até anos, tornando tudo mais difícil. Atividades que antes eram prazerosas perdem o sentido, a energia desaparece e até as tarefas mais simples parecem impossíveis.

Além disso, a depressão traz outros sintomas, como irritabilidade, alterações no sono, no apetite, na concentração e na forma como a pessoa enxerga a si mesma. Muitas vezes, há sentimentos intensos de culpa e inutilidade, além de pensamentos negativos recorrentes. O sorriso e a energia podem aparecer momentaneamente, o que pode levar aqueles ao redor a não perceberem a gravidade da situação.

Nos casos mais graves, a depressão pode levar a pensamentos suicidas, e é por isso que não pode ser ignorada nem minimizada.

Muitas pessoas acreditam que uma boa conversa ou distração são suficientes para superar a depressão, mas nem sempre é assim. Enquanto a tristeza pode ser amenizada com o apoio de amigos e familiares, a depressão geralmente exige tratamento profissional. Psicoterapia, mudanças na rotina e, em alguns casos, intervenção medicamentosa podem ser essenciais.

Se você sente que a tristeza não passa, que sua energia está sempre baixa e que nada mais faz sentido, não ignore esses sinais. Falar sobre isso e buscar ajuda pode mudar tudo. A saúde mental é tão importante quanto a saúde física, e cuidar dela é um passo essencial para viver melhor.